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Não se censure! Como não se sabotar ao achar que suas ideias são ruins

Alguma vez você já censurou uma ideia que teve, por achar que não seria aceita, viável ou oportuna e, tempos depois viu a mesma ideia realizada por outra pessoa? Pois é, além do arrependimento, surge uma dúvida: por que temos essa tendência de desmerecer nossas ideias?

Para o psicólogo e professor associado da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Tiago Ravanello, isso está muito ligado ao fato de que concepção que temos a respeito de quem somos também leva o outro em consideração. Ele explica que, nesse sentido, também somos 'outros' e nos medimos por aquilo que supomos que será pensado de nós, ou como seremos recebidos afetivamente (se amados, odiados, aceitos e reconhecidos ou não). Assim, é comum avaliarmos a nós mesmos ou nossas ações usando como parâmetro o que estabelecemos como a expectativa do outro, nos culpando quando parecemos estarmos em débito com isso.

Para Adriane Arteche psicóloga, pesquisadora e professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), essa autocensura está ligada a autoestima, que por sua vez está relacionada com a autocrítica.

Algumas pessoas recorrentemente se autoavaliam de forma negativa, característica de quem tem mais dificuldade em identificar seus pontos positivos. "Em geral um ambiente excessivamente exigente, focado nos erros e não nos acertos, é o principal elemento que contribui para o desenvolvimento de uma autocrítica muito intensa", analisa.

Essa censura é uma estratégia mal sucedida de lidar com a ansiedade frente a uma situação em que o indivíduo antecipa que terá um desempenho abaixo do que gostaria e fica ansioso. Esse excesso de ansiedade impede o funcionamento cognitivo típico, gerando o bloqueio.

"Um dos maiores bloqueadores de dar novas ideias ou de pensar que elas serão aceitas é o medo. O medo de errar, de não ser aceito, de ser julgado, entre outros", afirma o psicólogo Yuri Busin. Para ele, a partir do medo as pessoas acabam deixando de expressar suas boas ideias e, naturalmente, deixam de executar algumas delas.

Ravanello afirma que é comum surgirem na clínica questões como essas. E normalmente as pessoas tendem resolve risso de duas formas ineficazes: de um lado, anular a si próprio e evitar a tomada de escolhas, justamente para poupar-se de um julgamento prévio; de outro, assumir que se é menos do que se deveria ser como modo de desculpar-se a alguém por se estar distante de um ideal (mesmo que inatingível).

"Essas duas formas de resolução levam a um sofrimento considerável, mas surgem com o intuito de evitar um dilema comum à existência humana: como construir caminhos que passem também pela aceitação de nossas imperfeições", pontua.

Segundo os especialistas, a autocensura de ideias pode ou não estar associada a traumas ou situações traumáticas vividas, mas não necessariamente. "Pode ser um traço da personalidade ter muito medo de ser julgado", analisa Busin. Ravanello pontua que "a dimensão do que nos é traumático não pode ser compreendida apenas através dos fatos tais como eles ocorrem, mas fundamentalmente na forma como eles são sentidos e repetidos em nossa história".

 

Inverta a situação

Qualquer coisa só pode ser mudada quando nos damos conta de que ela existe. A busca pelo autoconhecimento é uma das formas mais eficazes para alterar aquilo que não nos ajuda. Busin orienta a trabalhar em si mesmo o medo de ser julgado: "é interessante começar aos poucos e com pessoas com as quais você se sente melhor e mais seguro, e, lentamente ir combatendo os seus próprios medos e inseguranças".

Arteche aconselha "a focar nos próprios aspectos positivos e incrementar a autocompaixão, podendo valorizar as próprias fortalezas". Já Ravanello, diz que "é fundamental que exercitemos a difícil arte de (re)incluir nossas imperfeições em nossas vidas. Nada mais impossível do que viver uma vida ideal, sem perdas ou frustrações”.

Para o professor, vidas irreais povoam o nosso imaginário e parecem ser ofertadas cotidianamente, como em fotos que viralizam em redes sociais, em relatos de sucesso e superação de influenciadores digitais ou, ainda, em promessas de felicidade feitas por alguns profissionais focados em performance.

"Para além dessa fantasia impossível de ser sustentada, temos a nossa disposição uma vida real, repleta de encontros imperfeitos e ideias que possuem valor justamente por representarem nossos anseios", analisa Ravanello. Ele complementa que, a principal dica é substituir a noção de "sucesso", como um valor prioritário pelo qual avaliamos nossas ações, pelo critério de "realização”.

Ou seja, em vez de questionar o quanto uma ideia pode agregar de perfeição e felicidade a nossas vidas, devemos analisar o quanto ela pode nos realizar enquanto seres desejantes e, justamente por isso, também imperfeitos. Em situações em que a autoanálise não é suficiente, buscar a ajuda de um profissional de saúde mental como um psicólogo ou psiquiatra, é fundamental.


Uol, Viva Bem. Não se censure! Como não se sabotar ao achar que suas ideias são ruins". Disponível em:  <https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2019/>



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